2º encontro presencial do curso em Audiodescrição ministra técnicas para cinema, teatro e tv


Publicado em: 29.07.2014

Lívia Motta ensina a fazer audiodescrição em teatro

Lívia Motta ensina a fazer audiodescrição em teatro

Em um exercício de alteridade, feche os olhos e tente “ver” um filme que você nunca viu antes. Sem o recurso da visão, fica difícil ter a compreensão completa da obra e entender aquilo que não é dito por meio dos diálogos: a cor dos cabelos do mocinho, o figurino da mocinha, os olhares apaixonados, o caminhar no horizonte e outras simbologias que significam tanto quanto o que se vê, como movimentos de câmera e enquadramentos, típicos da linguagem cinematográfica.

Curso inédito no país, a Especialização em Audiodescrição, que teve seu segundo encontro presencial nos dias 24 a 26 de junho na Universidade Federal de Juiz de Fora, trouxe na sua programação o ensinamento de técnicas para elaboração de roteiros para a audiodescrição, recurso que auxilia na inclusão cultural de pessoas com deficiência visual a obras cinematográficas, televisivas e teatrais. Na modalidade semipresencial, o curso promovido pela UFJF em parceria com Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência teve início em março deste ano e segue na plataforma de ensino a distância, com previsão de término em agosto de 2015.

Realizado durante três dias seguidos no Auditório da Faculdade de Engenharia, o encontro contou com a presença de pioneiros na implantação do recurso no país como os professores Lívia Motta, Bell Machado e Maurício Santana. Coordenadora Pedagógica do curso e professora na disciplina Audiodescrição no teatro, Lívia Motta esclarece a principal característica do recurso. “Deve ter uma adequação da linguagem, mas ela não precisa ser neutra, tem que transmitir todo o encanto da cena”, explica.

Ela acredita ainda que para uma audiodescrição de qualidade “é preciso pintar a cena, traduzir gestos, expressões fisionômicas tentando ser objetivo mas sempre com um traço de poesia.”

A avaliação do curso tem sido bastante positiva, na visão de Lívia Motta. “Tenho ficado bastante animada, motivada e satisfeita com a produção dos alunos que tem tido um envolvimento muito grande. Tenho percebido que cada um está com um plano, um projeto em mente para estar desenvolvendo o recurso em suas regiões, com uma variedade de ideias e propostas. Isso é importante porque vamos ver o resultado disso com a divulgação do recurso da audiodescrição nessas regiões e muito mais pessoas beneficiadas que vão ter a sua inclusão cultural, escolar e social.”

Professora na disciplina Audiodescrição no cinema, Bell Machado avalia a importância do curso para efetivação de políticas

Bell Machado acredita que curso vai auxiliar nas políticas de inclusão

Bell Machado acredita que curso vai auxiliar nas políticas de inclusão

públicas inclusivas. “A audiodescrição é fundamental não só para as pessoas com deficiência visual, dislexia, baixa visão, mas é importante para conscientizar a sociedade e as esferas de governo para que promovam políticas públicas que possibilitem o acesso dessas pessoas aos lugares públicos. O curso está fomentando uma questão política importante, que é o espaço das pessoas com deficiência na nossa sociedade. Isso é o mais fundamental, cada um que vai sair daqui vai sair para lutar para que as políticas públicas se ampliem.”

A professora se refere ao cerca de cinquenta alunos das cinco regiões do país que estiveram presentes ao encontro. Luciene Fernandes é de João Pessoas/PB e acredita no poder de alcance do recurso. “Enxergar com palavras é algo que a gente não tem a dimensão, a gente vê o alcance e a felicidade das pessoas com deficiência visual que têm condições de estar inserida, de exercer sua plena cidadania, poder estar participando, estar integrado no meio acadêmico, social, do lazer. É uma curso importante e a universidade está de parabéns em promover e só temos a agradecer porque precisamos disso para ampliar a educação e alcançar todo esse público.”

Saldo positivo

Para Larissa, encontro presencial serve como troca de experiências

Para Larissa, encontro presencial serve como troca de experiências

Larissa Hobi também é de João Pessoa e valoriza o encontro presencial. “Eu acho que esses encontros presenciais são importantes para a gente conversar e praticar o que a gente vêm discutindo no ambiente virtual.  Eu estou achando o curso bem interessante, a forma como ele foi estruturado, a gente está tendo acesso a várias informações para depois cada um dar um direcionamento no que pretende trabalhar dentro da audiodescrição.”

Zaira Marmud, do Rio de Janeiro acredita que a interação presencial é importante para o desenvolvimento do aprendizado. “A oportunidade de estar aqui é maravilhosa, porque essa interação não só com o grupo, mas com os professores nos ajuda a tirar dúvidas. Essa questão de estar todos juntos, presencialmente, faz muita falta, até pela forma como a gente se posiciona, um colega pergunta uma coisa que pode ser sua dúvida.”

De Juiz de Fora, a aluna Patrícia Gomes de Almeida também acredita na importância da presença de cada um. “O encontro tem sido bastante gratificante porque reúne pessoas de vários estados e com várias experiências, isso é muito rico, principalmente para uma cidade como Juiz de Fora que ainda não tem o recurso na vida cultural, nas escolas.” A aluna Jamile Galvão Sampaio veio de Manaus/AM e está tendo uma visão positiva do recurso. “O mundo precisa ser acessível, independente de você ter uma deficiência ou não. Então quando você aprende uma ferramenta como a audiodescrição, vê que existe a possibilidade de inclui-la na sua realidade.”

Convidada especial, Mimi Aragón de Porto Alegre acha a oportunidade da troca é um presente. “Eu acho um presente poder aqui, é

Mimi Aragón acredita que para produzir acessibilidade é preciso compartilhar

Mimi Aragón acredita que para produzir acessibilidade é preciso compartilhar

uma oportunidade de conhecer pessoas novas, de ver colegas que não via há algum tempo, partilhar. Na minha empresa em Porto Alegre a gente tem esse discurso e essa prática da partilha, da formação de redes, acho que é assim que a gente cresce e desenvolve o recurso da audiodescrição. A gente acredita que não podemos produzir acessibilidade “encastelado”, quietinho num canto, então essa oportunidade de estar aqui eu acho que é de uma riqueza infinita.”

Deficiente visual Elizabeth Dias de Sá, de Belo Horizonte ficou muito satisfeita com o encontro. “O curso está muito bem organizado, com conteúdo programático muito importante, contemplando todas as áreas e com um nível de exigência do conhecimento acadêmico e da aplicação da audiodescrição em diversas áreas. É um curso pioneiro, o corpo docente é altamente qualificado e tem esse diferencial, que nós temos audiodescritores com diferentes experiências e eu, como pessoa cega, estou aqui para me

Beth está se capacitando para ser consultora em audiodescrição

Beth está se capacitando para sua atuação como consultora em audiodescrição

qualificar como consultora.”

Membro do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoas com Deficiência em Brasília e aluno do curso, Jorge Amaro de Souza Borges encara o curso como uma experiência nova. “Para mim o curso está sendo importante porque está mesclando pessoas como eu que estão tendo o primeiro contato com a audiodescrição. Gostei de ser um encontro longo, que é quase uma imersão. O que percebo é que para grande parte das pessoas com deficiência visual a audiodescrição ainda é uma desconhecida e as pessoas que conhecem não acham que é um direito e sim um “plus” a mais. Por isso acho que os conselhos têm papel importante de divulgar, que não é um favor, é um direito que elas têm que reivindicar porque é algo que as coloca em igualdade de condições com outras pessoas.”

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